07.07.2026 

Antissemitismo e transfobia: O desejo dos sujeitos que odeiam – com Apresentação por Agnes de Oliveira

por Lara Wenzel
Tradução por Gabriel Carvalho, revisão de Yasmin Afshar
Publicado em: História e Desamparo

Versão em alemão: Antisemitismus und Transfeindlichkeit. Das Begehren der hassenden Subjekte (Working Paper 3/2024)

Apresentação à tradução
Agnes de Oliveira

Ao menos desde os anos 70-80, as elaborações críticas mais diversas se encarregaram de analisar a emergência e ascensão de um “novo radicalismo de direita”. Trata-se do início dos “anos de inverno” do qual ainda não saímos, apesar do chamado “ciclo dos governos progressistas”. Após a crise de 2007/08, o esgotamento do “ciclo progressista” e a eleição de Donald Trump, o debate sobre o radicalismo de direita ganhou ainda um novo fôlego.

As nomeações (neofascismo, ultradireita, trumpismo, bolsonarismo) e explicações para a emergência e dinâmica do neofascismo são variadas. Diante desse contexto, pareceu incontornável para o pensamento crítico a remissão, por analogia, às constelações do fascismo histórico da primeira metade do século XX. Com isso, se tornou difícil não notar um certo grau de desorientação do pensamento de esquerda e que algo de singularmente novo escapou – e escapa – as tentativas de explicar o que está em curso. Em outros termos, o pensamento por analogia acabou nos conduzindo a uma “perda da História”. A transformação do sistema de coordenadas sócio-históricas resistia, e resiste, a ser captada pelas bússolas teóricas até então disponíveis.

O teórico alemão Robert Kurz, cofundador da revista Krisis e EXIT!, foi um dos que insistiu nas condições qualitativamente novas do radicalismo de direita, fornecendo-lhe uma explicação. Algo que foi sintetizado pelo autor na seguinte formulação:

O velho radicalismo de direita foi um fenômeno da ascensão e das crises de desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias, que ainda tinha diante de si um espaço de desenvolvimento histórico; foi uma função do ‘crescimento interno’ no interior das vestes ainda não completamente preenchidas do universalismo abstrato no campo do trabalho, do povo e da nação. O novo radicalismo de direita já é ele mesmo uma forma visível do esgarçamento daquelas vestes, um fenômeno da desrazão das particularidades não mais generalizáveis dos sujeitos concorrenciais que se veem diante do universalismo abstrato totalizado da mercadoria e do dinheiro que não é mais capaz de integrar (Kurz, 2020, p.59)

Diante da ausência de perspectiva no interior de uma forma social que perdeu seu combustível histórico, o novo radicalismo de direita emerge sobre as bases de uma “guerra de distribuição dos recursos” sem perspectiva, ao mesmo tempo que a alimenta. O atual estágio de fragmentação e escalada bélica do mundo – imediatamente globalizado – confirma esse diagnóstico, além de dar notícias do quão avançado está o processo de decomposição da forma universal abstrata de mediação da (re)produção social.

Ocorre, contudo, que mesmos as melhores análises sobre as dinâmicas do neofascismo ignoraram, em larga medida, o papel constitutivo das relações de gênero e, em especial, do ódio antitrans. Algo também observável com as diversas formas de racismos e o antissemitismo. Frequentemente, tais aspectos constitutivos do novo radicalismo de direita são, quando considerados, abordados pela esquerda como secundários, possuindo o estatuto de “ideologias” ou “cortinas de fumaça”, que encobririam as questões que realmente importam e são determinantes: os processos econômicos e a luta de classes.

Esse quadro sócio-histórico e teórico, portanto, coloca um duplo desafio para quem busca tratar da questão da relação entre transfobia e antissemitismo: dar conta da novidade do novo radicalismo de direita e, ao mesmo tempo, do papel do gênero e do racial na constituição da forma-capital

Posto isso, e indo direto ao assunto da tradução aqui apresentada, o debate sobre a relação entre transfobia, antissemitismo e neofascismo é praticamente nula no Brasil, mas não só. É difícil encontramos algo à respeito. Beatriz Pagliarini (2022), vinculada ao Centro de Pesquisa Transfeminista, foi uma das poucas pessoas que atentou para a relação entre transfobia, antissemitismo e supremacia branca, analisando a circulação discursiva do pseudo-diagnóstico de “disforia de gênero de início rápido” nos meios de extrema-direita, dos movimentos críticos de gênero (gender critical) e das feministas radicais trans-excludentes (TERFs). Apesar de esforços análogos, a relação entre transfobia e antissemitismo, quando estabelecida no campo teórico, é abordada ainda num nível meramente descritivo e fenomenológico, sem com isso expor o nexo estrutural interno e histórico-genético entre ambos.

Um elemento adicional a essa questão diz respeito à relação também pouco tematizada entre feminismo e antissemitismo. Embora a presença do antissemitismo na esquerda, operando na elaboração de uma crítica limitada do capitalismo, personificado na figura do judeu, já conte com um certo acumulo teórico. Atualmente, a presença do antissemitismo no interior do feminismo se torna incompreensível sem sua mediação com a transfobia. A  transfobia sustenta, atualmente, um certo descontentamento contra o patriarcado, que é personificado na figura, sobretudo, de pessoas transfemininas.  Assim, operando conjuntamente, transfobia e antissemitismo sustentam uma crítica limitada, pois acabam reforçando as próprias bases do criticado, tanto do patriarcado quanto do capitalismo, que procede por meio de personificações das relações capitalistas e patriarcais em torno das pessoas trans e judias. É o que ocorre, por exemplo, na teoria conspiratória de um suposto lobby trans/queer financiado por elites globais – explicita ou implicitamente associadas aos judeus – que ameaça a segurança das mulheres cis e da família burguesa. Lembremos, nesse sentido, que o livro The Transexual Empire de Janice Raymond, perpassado por elementos antissemitas, é de 1979 e marca uma deriva transfóbica do feminismo radical. Tal virada deve, ao meu ver, ser inscrita como componente de um processo social mais abrangente de crise fundamental do cispatriarcado da mercadoria.

O texto aqui traduzido de Lara Wenzel – Antisemitismus und Transfeindlichkeit. Das Begehren der hassenden Subjekte (Antissemitismo e transfobia. O desejo dos sujeitos que odeiam) – representa um raro esforço para analisar o nexo interno entre transfobia e antissemitismo. Para isso, Wenzel parte de trabalhos teóricos – extremamente recentes, diga-se de passagem – que analisam o parentesco entre transfobia e antissemitismo no plano histórico. Ao mesmo tempo, a autora constata a insuficiência da análise histórica em explicar por que essas duas modalidades de ódio assumem a mesma forma, como por exemplo: a presença de teorias conspiratórias, delírios paranoicos de limpeza, perseguição, penetração, dissimulação etc.

Buscando dar conta dessa lacuna, Wenzel opta por uma análise no plano da estruturação do desejo e dos mecanismos psíquicos de defesa. Tal psicogênse da transfobia e do antissemitismo busca explicitar os papéis que ambos desempenham, no interior da economia psíquica, para a estabilização do eu. Não se trata, então, de patologizar a transfobia e o antissemitismo, mas de mostrar que ambas formas de ódio compartilham mecanismos psíquicos que constituem a unidade e estabilização sociopsíquica das pessoas normais. O que permite, ao mesmo tempo, uma descrição das diferenciações do ódio contra pessoas trans/queer e judias, sem perder de vista aquilo que compartilham no nível da estrutura subjetiva.  Wenzel se apoia, sobretudo, no trabalho de  Elisabeth Young-Bruehl, A anatonomia dos preconceitos, analisando três tipos psíquicos ideais, seu correspondentes mecanismos de defesa e formas de preconceitos transfóbicos e antissemitas: o obsessivo, o histérico e o narcísico.

 Enquanto a análise da economia psíquica permite explicar a forma de ódio compartilhada entre transfobia e antissemitismo, as análises históricas, segundo Wenzel, possibilitam explicar por que são determinados grupos e não outros que possuem maior probabilidade de se tornar objeto de ódio.  E entre um plano e outro, Wenzel aponta para o papel mediador da ficção do sujeito como proprietário de si, fundamental para a produção capitalista e seu processo de subjetivação, que é dependente da produção de “objetos de substituição fantasmáticos” sexistas e racistas.

Embora o esforço de Wenzel seja fundamental, a primazia dada à estrutura psíquica coloca alguns problemas quando se trata de pensar a relação entre transfobia, antissemitismo e capitalismo. E o recurso à ficção do sujeito como proprietário de si é ainda insuficiente para explicar como a transfobia e antissemitismo constituem a própria a forma universal abstrata de reprodução e de pensamento baseada no valor, assim como sua  dinâmica lógico-histórica contraditória. Sem tal abordagem, o nexo interno entre transfobia e antissemitismo acaba sendo reduzido ao caráter “flexível” do objeto de ódio no interior de uma estrutura psíquica compartilhada. O que, novamente, relega um estatuto secundário às diferenças no plano da constituição da forma-sujeito e sua economia psíquica, abordando a transfobia e o antissemitismo como “preconceitos” ou “bode expiatórios” para o ódio indiferenciado do sujeito que deseja.1 Tudo isso torna incompreensível por que o ódio aos judeus e às pessoas trans, e não a outros grupos, alimentam um certo tipo de descontamento contra aspectos do capitalismo e do patriarcado por meio de personificações.2

Como mencionado no início desta apresentação, o papel constitutivo da transfobia e do antissemitismo no novo radicalismo de direita poderia ser melhor analisado se inscrito no interior do processo de crise fundamental do cispatriarcado da mercadoria, sem ignorar as análises no plano psicossocial. Embora não possa desenvolver isso com mais detalhes aqui, o teorema do valor-dissociação de Roswitha Scholz e sua análise da multidimensionalidade da forma social, operando em vários níveis e momentos, apresenta contribuições importantes nessa direção.

De todo modo, o que gostaria de observar é que a relação atual entre transfobia e o antissemitismo remetem ao contexto de crise dos papéis de gênero e da produção do valor a partir do consumo da força de trabalho. O papel preponderante que o capital fictício – ele mesmo um fenômeno de crise – desempenha, no contexto da globalização imediata das cadeias produtivas e da “hiperacumulação estrutural” da produção de valor, fornece o húmus para o antissemitismo, o novo radicalismo de direita e o neonacionalismo “anti-globalista”. O que significa dizer, em outros termos, que o antissemitismo é ele próprio uma componente fundamental do processo em curso de crise. Por outro lado, a crise da reprodução das relações de gênero e da família nuclear burguesa constitui a base de intensificação do ódio e violência contra pessoas trans.

Nesse contexto, o papel do antissemitismo e a transfobia na atual dinâmica neofascista, bem como seu nexo interno, remete para condição qualitativamente nova da crise da forma social do valor-dissociação: a impossibilidade, embora almejada, de restauração da coesão social baseada no trabalho, no povo, na nação, nos papéis tradicionais de gênero e na família nuclear fordista; impossibilidade de restaurar a produção cispatriarcal do valor, assim como as relações de reprodução cis-heterossexual entre os gêneros. Tal contexto de crise fundamental não deixa de afetar, assim como ocorreu com o movimento operário, o feminismo, pois implica uma crise do “sujeito político mulher”.3 Essa constelação é qualitativamente diferente do fascismo histórico, que foi acompanha por um processo de modernização, inclusive no campo das relações de gênero, a partir da expansão da acumulação capitalista e do modelo da família nuclear burguesa.4

Assim, por um lado, as pessoas judias são associadas ao dinheiro “sem substância”, desterritorializado e parasitário da hiperestrutura financeira, controlando tudo desde cima, auferindo vantagens indevidas, enriquecendo sem o recurso ao “trabalho honesto” e à boa produção industrial. O que explica a responsabilização unilateral e com elementos antissemitas do capital financeiro, personificado nos judeus, pelas crises produzidas pelas contradições imanentes à forma social do capital.  Por outro lado, as pessoas trans são associadas ao gênero também sem “substância”, tendo suas identidades consideradas como “artificiais” e “desterritorializadas” em termos sexuais, sem “lastro” material e corpóreo, “dissimulando” e “enganando” pessoas cis, e sendo responsabilizadas pelas crises e decadências dos papéis tradicionais de gênero e da família burguesa, que são, contudo, resultantes da própria contradição em processo do cispatriarcado produtor de mercadorias.5

O que quero destacar aqui é como tais elementos apontam para como o antissemitismo e transfobia, no contexto da forma social moderna, partilham uma mesma forma de ódio ao abstrato, ao artificial e desterritorializado, em contraposição ao concreto, ao natural e ao territorial: tanto do ponto de vista do trabalho, da mercadoria, do dinheiro e da forma Estado-nação, quanto do ponto de vista dos papeis de gênero, da família e do corpo.  No interior dessas duas modalidades de ódio está a centralidade negativa do trabalho e da dissociação cis-heterossexual, em torno das quais se produz uma personificação da face abstrata da socialidade moderna, identificada como a face negativa do capitalismo e do patriarcado, como forma de resolver a contradição em processo entre a forma e matéria, o abstrato e o concreto. O que se encontra sintetizado na teoria da conspiração global do lobby trans/queer, envolvendo a Big Pharma e o capital financeiro judaico.6

Tal análise da transfobia e do antissemitismo enquanto formas de ódio ao abstrato pode contribuir, nesse sentido, para uma explicação dos papéis que o ódio contra pessoas trans e judias desempenham numa crítica limitada e personificada do cispatriarcado capitalista, presente tanto na esquerda e no feminismo, em especial no feminismo radical trans-excludente, quanto no radicalismo de direita, sendo o combustível de uma “revolta autoritária”. Esse tipo de “anticapitalismo romântico”, presente em inúmeras críticas anticapitalistas e formas de revolta à socialidade burguesa não é uma novidade. A oposição do concreto ao abstrato, do valor de uso ao valor de troca se tornou um lugar comum no pensamento de esquerda.  Assim, se toma rapidamente partido pela face concreta e material como ponto de vista da crítica da forma social moderna, em contraposição com a face abstrata, sem levar em devida consideração o caráter capitalista também que o concreto e material , supostamente “autênticos” e “originários”, assumem na produção de mercadorias.7 O mesmo ocorre no campo da crítica ao patriarcado, cujo foco recaí unilateralmente sobre seus aspectos abstratos (a dimensão simbólico-cultural, artificial e imaterial do gênero ), sem considerar devidamente como o próprio corpóreo – o dimorfismo sexual considerado “natural” – incorpora e é formado pelas relações de gênero modernas. Ao invés de estática, separada e passiva, a dimensão concreta e corpórea acompanha os processos das relações sociais cis-patriarcais.

No plano simbólico-cultural e sócio-psíquico, tal abordagem também evitaria o recurso à explicações baseadas no preconceito e no papel de “bode-expiatório” das discriminações, considerando devidamente a especificidade do papel do antissemitismo e da transfobia no interior da constituição da forma-sujeito moderna e da sua economia psíquica pressuposta, tendo como referência a contradição entre forma e matéria, o abstrato e o concreto, bem como seu papel na produção de fantasias e delírios de perseguição, dissimulação, penetração, conspiração etc.8

Por fim, e sem pretender esgotar uma questão tão complexa, a abordagem aqui sugerida poderia nos ajudar na elaboração da especificidade da transfobia e do antissemitismo no novo radicalismo de direita. Diferente da constelação do fascismo histórico, mediado pelo desenvolvimento do capitalismo, o antissemitismo e a transfobia no contexto das democracias pós-fascistas e do colapso da modernização produzem personificações da crise do capital sem, contudo, ter a sua disposição qualquer horizonte histórico de desenvolvimento ao qual se agarrar. O que imprime ao neonacionalismo e às políticas antitrans de defesa dos papéis de gênero e da família uma ausência de perspectiva ou expectativa histórica, assumindo feições apocalípticas, de desespero sobrevivencialista e concorrencial no interior de uma forma social em decadência.

Antissemitismo e transfobia: O desejo dos sujeitos que odeiam

1. Introdução

Após duras discussões, a “coalizão semáforo”9 lançou a tão esperada lei de autodeterminação. A partir de novembro de 2024, a nova lei deverá substituir a antiga lei de transexuais, que tem sido repetidamente declarada inconstitucional. Anteriormente, a alteração da designação de gênero só era possível mediante um laudo psicológico e uma decisão judicial, em um processo longo, caro e humilhante; agora, o procedimento será simplificado de acordo com as diretrizes do Tribunal Constitucional Federal (BVerfG). A decisão contrariou alguns setores conservadores de direita, mas também feministas: a nova lei abriria as portas para (potenciais) criminosos que assim teriam acesso a espaços de proteção para mulheres. Na revista feminista de diferença10 Emma, a autora Chantal Louis alertou sobre os “propagandistas da ideologia trans descolados da realidade”, que queriam permitir que “homens” entrassem na sauna feminina (Louis, 2023). O medo da violência se combina na crítica à lei de autodeterminação com o fantasma de um lobby trans ou queer, que, dotado de grande influência política, imporia seus interesses sobre as pessoas “normais”. Assim como em teorias conspiratórias antissemitas, um murmúrio atravessa os preconceitos dos queer- e transfóbicos.

O ódio contra pessoas trans e, em especial, contra pessoas transfemininas, assemelha-se ou se conecta com teorias conspiratórias antissemitas. Como mostra a teoria de Elisabeth Young-Bruehl, diferentes tipos de preconceitos se encontram no caldeirão da -queer e transfobia, os quais cumprem diferentes funções psicossociais na psique dos sujeitos que odeiam. Aqui, exclui-se uma definição positiva de identidade queer e da transgeneridade, pois esses termos não são usados de forma afirmativa, mas como designações externas, no sentido de preconceitos que constroem grupos.

O nexo entre o antissemitismo e a queer- e transfobia já foi assinalada por outros trabalhos teóricos (Joaquina, 2021; Kracher, 2021; Stögner, 2008). A constatação desse parentesco, que até agora foi feita em um nível histórico, é um passo importante para analisar esses preconceitos. No entanto, esta não basta para compreender por que esses preconceitos assumem a mesma forma. O enfoque de Young-Bruehl, que relaciona os preconceitos à estrutura de desejo e aos mecanismos de defesa dos sujeitos, ajuda a esclarecer essa questão. Sua abordagem torna compreensível qual função (ou mais de uma) o antissemitismo e a queer- e transfobia desempenham na psiquê dos sujeitos que odeiam. Em uma perspectiva que se conecta às reflexões de Eva von Redecker sobre a propriedade fantasmática, fica claro como os diferentes tipos de preconceitos surgem no processo de produção capitalista.11

2. O antissemitismo e a transfobia como vizinhos históricos

O vínculo entre o antissemitismo e a transfobia já foi estabelecido por algumes autories queer-feministas: Veronika Kracher observa que o murmúrio sobre um “lobby LGBTQ”, o qual disporia de grandes recursos financeiros e influência social, lembra as narrativas conspiratórias antissemitas (Kracher, 2021). Também nesse contexto, um pequeno grupo definiria, às escondidas, os rumos do mundo. Essa teoria predominaria em setores conservadores de direita, de extrema-direita, mas também em círculos de esquerda. Um componente da teoria conspiratória queerfóbica seria a ideia de que um lobby, de conotação judaica, estaria agindo para promover o “genocídio da família nuclear branca”. Kracher resume esta ideologia da seguinte maneira: “Os culpados pelo feminismo e pela propaganda queer, e, portanto, pela queda nas taxas de natalidade e pelo aparente e inexorável declínio da raça branca, são, na verdade, os comunistas judeus da Escola de Frankfurt” (Kracher, 2021).

A ideia de que a Teoria Crítica, uma infiltração externa, seria a origem da propaganda queer, é presente, em particular, nos EUA. No Occidental Observer, uma revista online da extrema-direita, Andrew Joyce desenvolve essa assunção de culpa: a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt e, de forma exemplar, a reivindicação de Adorno por uma condição social na qual se possa ser diferente sem medo, levaria à designações de identidade nuançadas e ao declínio da binaridade heteronormativa. Em suas palavras: “Ao defender sutilmente a posição dos social e sexualmente subversivos, estas figuras judaicas poderiam obter a aceitação e passar despercebidas numa nova sociedade atomizada, ao mesmo tempo em que minariam a saúde da nação homogênea”. (Joyce, 2015).

O solapamento daquilo que é supostamente masculino e feminino destruiria a família “saudável” e, por fim, conduziria ao genocídio o grupo que deseja manter esses valores conservadores. Em seu artigo, ele intelectualiza sua ideologia antissemita e de hostilidade às pessoas queer ao construir uma narrativa sobre sexólogos judeus. Segundo ele, a influência desses sexólogos seria a causa da desintegração das normas tradicionais e da relação entre os gêneros. Da mesma forma, atores centrais do movimento antigênero associam transfobia a teorias conspiratórias antissemitas.12 Por exemplo, Jennifer Bilek, em um artigo intitulado “A humanidade está pronta para os bebês tecnológicos LGBTQ+ e o completo apagamento das mulheres na reprodução?” (Bilek, 2023), tenta expor os supostos financiadores da agenda LGBTQ.13

A partir de fontes contemporâneas e históricas da extrema-direita, Kracher vê a conexão desses preconceitos como também tendo uma base histórica. Já na ideologia nacional-socialista, os judeus teriam sido associados a uma sexualidade desviante:m “O judaísmo ainda é equiparado ao que é queer e perverso nos discursos antissemitas” (Kracher, 2021), escreve Kracher. O alvo central para eles é Magnus Hirschfeld. O marxista judeu fundou o Instituto de Ciências Sexuais durante a República de Weimar, trabalhou para combater a estigmatização da homossexualidade e cunhou os termos travestismo e transexualidade. Com a transferência do poder aos nazistas, o instituto foi desmantelado, e suas publicações e documentos de pesquisa foram destruídos na queima de livros no Portão de Brandemburgo (Cohen, 2018).

Tal como Kracher, a autora Joaquina também enfatiza o desenvolvimento histórico dos preconceitos transfóbicos e antissemitas:

„Quando os nazistas tomaram o poder, puseram-se a destruir a cultura e os estudos trans que floresceram na era da República de Weimar, um fato que é deliberadamente ignorado pelos ativistas antitrans. A extrema-direita contemporânea, por sua vez, vê os direitos LGBT+ como um elemento de um complô judaico ‘marxista cultural’ para destruir a civilização ocidental“ (Joaquina, 2021).

Com essa reconstrução histórica dos preconceitos, as autoras conseguem explicar por que existe uma nexo entre a hostilidade contra pessoas queer e o antissemitismo, mas não por que eles assumem a mesma forma. Além disso, na construção histórica, há o risco da simplificação excessiva. Tanto o pudor burguês e a família, como a sexualidade liberal na República de Weimar foram repudiados pelo nacional-socialismo como sendo “judaicas”. Enquanto, especialmente na fase final da República de Weimar, lhes era atribuída uma transgressão das fronteiras de gênero, os judeus também podiam ser retratados pela ideologia nacional-socialista como particularmente patriarcais e como “figura substituta do pai edípico” (Stögner, 2008, pp. 77–78) do próprio grupo.14 Na ideologia de Joyce, essa dimensão aparece apenas na supremacia conferida a um lobby queer, mas a acusação de pudor desaparece. O medo da transgressão é o que está em foco na reconstituição dos antecedentes.

Ao abordar, como Joaquina e Kracher, a questão de por que o antissemitismo e a hostilidade contra pessoas queer adquirem estruturas semelhantes a partir de uma perspectiva histórica, rapidamente se chega a uma mistura ou equiparação de ambas as formas de discriminação. No entanto, isso não explica por que essa conexão é tão fortemente enfatizada hoje por agentes da direita e por que a hostilidade contra pessoas queer é constituída por medos próprios ao antissemitismo. Tampouco se compreende a existência de queer- e transfobia em círculos de esquerda e feministas, que se consideram, eles mesmos, sensíveis à luta contra o antissemitismo. Resta saber qual desejo está por trás da queer- e transfobia e por que esses preconceitos assumem a estrutura das teorias conspiratórias antissemitas.

Nas reconstituições históricas, a queer e a transfobia aparecem como um componente de uma teoria conspiratória antissemita de direita, na qual os judeus são designados como dirigentes. Isso é um importante elemento de análise, mas esses preconceitos não podem ser compreendidos adequadamente se forem descritos apenas como subformas ou componentes do antissemitismo.A queer- e a transfobia podem se manifestar fora desse quadro conspiratório e ainda assim assumir uma estrutura e dinâmica antissemitas. O fato de ambos os preconceitos reveralem uma estrutura semelhante não indica que um seja subordinado ao outro. Eles se assemelham porque desempenham funções semelhantes na economia psíquica dos sujeitos.

3. Tipos ideais psicanalíticos e seus preconceitos

Elisabeth Young-Bruehl, que em A Anatomia dos Preconceitos enfatiza a pluralidade dos preconceitos e seus formas mistas, descreve, partindo de Freud, três tipos ideais de organização psíquica, que desenvolvem preconceitos organizados de maneiras distintas. Com isso, ela se opõe, por um lado, a uma compreensão extrapolada do caráter autoritário, o qual seria a origem uniforme de todos os preconceitos e, por outro lado, a uma diferenciação excessiva das discriminações, na qual se enfatiza sua incomparabilidade. As tipificações que ela descreve são vistas como um instrumento para comparar, categorizar e entender melhor os preconceitos sob a perspectiva de sua psicogênese. Por que o ódio dos sujeitos assume uma forma específica? Na análise de Young-Bruehl dessa questão, torna-se evidente que o objeto do ódio é flexível e pode se deslocar de acordo com mudanças legais, culturais ou econômicas. Para entender diferentes facetas da queer- e transfobia no vocabulário de Young-Bruehl como estruturas de desejo, apresentarei a seguir a análise sistemática dos três tipos ideais e da estrutura de preconceito correspondente.

3.1 As ideologias do desejo

 Queer- e transfobia correspondem, na análise sistemática de Young-Bruehl, a “orektizismos”, derivado da palavra grega orektikos (desejável). Diferentemente dos etnocentrismos, que se referem à homogeneidade e tradições de grupos, os orektizismos são ideologias do desejo (ideologies of desire). Entre eles estão preconceitos como antissemitismo, racismo, sexismo ou homofobia, que, assim como a queer- e a transfobia, correspondem a diferentes medos e desejos dos sujeitos que odeiam (Young-Bruehl, 1998, p. 185).

Enquanto as pessoas etnocêntricas não precisam de justificativas institucionalizadas para manter seus preconceitos, os orektizistas constroem uma legitimação primordial: “O orektizista acredita, porém, que a raça é destino, que a anatomia é destino, que a superioridade é biológica e herdável” (Young-Bruehl, 1998, p. 193). Para os orektizistas, não basta invocar e transmitir essas crenças informalmente como tradições. Elas devem ser consagradas em leis, como as leis de Jim Crow15  ou a lei sobre transsexuais. Nesse tipo de preconceito, não se trata de defender um grupo “nós” contra o “outro”, mas sim do surgimento de um grupo por meio dos mecanismos de defesa compartilhados ao qual é possível fazer referência em conjunto.

Os orektizistas projetam em outros grupos a expressão de seu próprio desejo, consciente ou inconsciente. A atração se inverte – de acordo com o que Freud descreveu como a paranoia de perseguição16 – em ódio: “Um ‘eles me [nos] odeiam’ dá lugar a um ‘eu [nós] odeio [odiamos] eles’, que pode muito bem ter provindo dos destroços de um ‘eu [nós] amo [amamos] eles’” (Young-Bruehl, 1998, p. 189). Nesse mecanismo, revela-se o núcleo dos preconceitos orektizistas: eles se protegem contra o reconhecimento dos próprios desejos, sentimentos de culpa e vozes do supereu.

Na sua descrição da projeção delirante, Young-Bruehl se aproxima da teoria do caráter autoritário de Adorno e Horkheimer, conforme exposta na sexta tese dos “Elementos do Antissemitismo”. Nela, afirma-se que o elemento patológico do antissemitismo se daria pela falência da reflexão na falsa projeção. O sujeito:

„perde a reflexão nas duas direções: como não reflete mais o objeto, ele não reflete mais sobre si e perde assim a capacidade de diferenciar. Ao invés de ouvir a voz da consciência moral, ele ouve vozes; ao invés de entrar em si mesmo, para fazer o exame de sua própria cobiça de poder, ele atribui a outros os ‚Protocolos dos Sábios de Sião.’” (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 176f)

O interior é projetado para o exterior, de modo que até mesmo o mais familiar aparece como hostil. A projeção paranoica é motivada pelo medo da castração. A “transferência para o objeto dos impulsos socialmente condenados do sujeito” — que muitas vezes são de natureza homossexual — se inverte em agressão. O medo da castração se torna o “ânsia de destruição generalizada”(Adorno; Horkheimer, 1985, p. 179; cf. Poßner, 2023).

A formação de preconceitos, segundo Young-Bruehl, não pressupõe uma patologia. Eles são produzidos por “pessoas normais”, ajudando-as a manter sua (relativa) normalidade. Esses mecanismos de defesa contribuem para controlar impulsos, regular a si mesmo e equilibrar as forças conflitantes da psique. Em pessoas psicóticas, os preconceitos e sua estrutura tornam-se uma parte integral da psicose (Young-Bruehl, 1998, p. 209).

3.2 Tipos libidinais segundo Freud

Young-Bruehl entende “os preconceitos como mecanismos sociais de defesa”. (Young-Bruehl, 1998, pp. 203–4) Como cada tipo libidinal segundo Freud desenvolve diferentes mecanismos de defesa, cada um cria preconceitos que são estruturados de maneira distinta e estabilizam os sujeitos de diferentes formas. Young-Bruehl baseia sua tipologia nos tipos libidinais de Freud, que ele desenvolve nos textos “Tipos Libidinais” e “Neurose e Psicose”. Essas organizações da psique, que podem ser atribuídas à “negação, ao não cumprimento de um daqueles desejos infantis eternamente insuperáveis” (Freud, 1982a, p. 335), situam-se em um espectro que vai de uma leve manifestação até a patologia e aparecem em formas mistas. Baseando-se em Freud, a autora resume os três tipos de caráter da seguinte forma: os tipos eróticos (histéricos) representam as exigências instintivas do isso. Eles desejam ser amados e, por isso, frequentemente entram em relações de dependência. No tipo obsessivo, o supereu domina. Ele pode ter sucesso no mundo do trabalho graças a características obsessivas, como ordem, limpeza ou disciplina, e revalorizar as características de personalidade obsessivas como virtudes. Freud o descreve como o portador predominantemente conservador da cultura (Freud, 1980, p. 270). Os narcisistas seriam mais independentes, agressivos e demonstram afeto para vincular outras pessoas a si. Eles atuariam como líderes, seriam orientados para o futuro e predominariam em suas famílias nucleares como homens sujeitando suas esposas, as quais eles percebem como parte de si mesmos. Segundo Freud, esses tipos libidinais não descrevem disfunções, mas delas podem surgir quadros patológicos. Dos tipos eróticos derivam a histeria, o tipo obsessivo pode desenvolver neuroses obsessivas e o tipo narcisista tem predisposição à psicose.

Na situação de análise, os três tipos mostram diferentes mecanismos de defesa: o tipo histérico reprime seu desejo e frequentemente se caracteriza pelo silêncio na sessão. O tipo obsessivo fornece informações detalhadas sobre sua vida, mas suas palavras e descrições estão desvinculadas de emoções. O mecanismo de defesa do narcisista é se voltar contra os analistas, a quem ele desvaloriza como inferiores ou “femininos”. (Young-Bruehl 1998, pp. 203f).

a) O tipo obsessivo e seus preconceitos

Limpeza, teimosia e parcimônia caracterizam o tipo obsessivo, que se sente atraído por instituições burocráticas. Nessas instituições, ele encontra prazer no controle e na humilhação de outros, especialmente em situações que envolvem a regulação de idas ao banheiro, como em escolas ou lares de idosos, ou na conspurcação verbal ou física de outros. Essas inclinações podem ser atribuídas a uma fixação na fase anal do desenvolvimento libidinal. Os obsessivos frequentemente têm fantasias paranoicas, como o medo de terem seu ânus penetrado ou violentado. Outras ansiedades paranoicas giram em torno da perda de controle, sujeira e a ideia de serem roubados, conforme descrito pela psicanalista (Young-Bruehl, 1998, p. 213). Eles tentam limitar a invasão externa — seja pela fantasia da sujeira ou de penetração — traçando fronteiras mais claras em torno do objeto. Assim, sua preferência por organizar tudo em listas e tabelas também se aplica aos grupos que marcam como diferentes, que supostamente perturbam a ordem homogênea.

„Não importa qual a intensidade do seu desejo de eliminar os outros, obsessivos se dedicam a classificar e marcar as pessoas e grupos contra quem dirigem seus preconceitos, pois devem se certificar de que seus inimigos são identificáveis, de que eles não podem se esconder na multidão, ou – o que é pior ainda – se infiltrar no próprio grupo do obsessivo, espalhando sua poluição através do contato sexual ou da conquista intelectual“ (Young-Bruehl, 1998, p. 218)

Enquanto depreciam o grupo infiltrante como sujo, ao mesmo tempo atribuem-lhe um grande poder intelectual e econômico. Esse grupo seria poderoso o suficiente para manipular o mundo e conduzir uma conspiração internacional. A admiração implícita nessas projeções, que os vê como poderosos e inteligentes, transforma-se em ódio. Devido à dominância do supereu, surge a fantasia de ser controlado por outros:

„[E]les tendem à compreensão de seus pensamentos e sentimentos como estando perigosamente sob controle exterior. […] [S]eus preconceitos lhes permitem deslocar seus sentimentos de culpa para os outros, culpando-os, dizendo a si mesmos que foram sabotados, que outra pessoa estão os fazendo infelizes“ (Young-Bruehl, 1998, p. 215).

Esse tipo de personalidade, geralmente, desenvolve preconceitos antissemitas que se manifestam como uma fixação em judeus e judias, vistos como figuras paternas poderosas, e no desejo de destruí-los. No entanto, seu ódio pode se voltar contra qualquer grupo constituído que oscile entre uma alteridade fundamental e uma semelhança indistinguível em relação ao grupo de pertencimento. A angústia de que seu próprio grupo possa ser infiltrado por homossexuais, à qual Young-Bruehl faz referência, e a queer- e transfobia também podem assumir formas obsessivas. Como mencionado anteriormente, isso ajuda a explicar por que esse tipo de preconceito lembra o antissemitismo.

Para isso, os preconceitos não precisam ser incorporados a uma teoria da conspiração. Além do prazer de demonstrar publicamente repulsa por pessoas trans, o medo transmisógino da penetração é um motivo central do preconceito obsessivo. Exemplos disso podem ser encontrados não apenas em círculos de direita e conservadores, mas também entre agentes de esquerda e feministas, que se expressam conforme a estrutura obsessiva especialmente em relação a pessoas transfemininas. No blog feminista radical Die Störenfriedas [As Encrenqueiras], uma autora descreve um encontro com uma pessoa transfeminina em um banheiro de clube da seguinte maneira:

„Não me importa sob quais roupas femininas esse pênis é carregado e quanta maquiagem a pessoa que o possui usa no rosto. Um banheiro é um lugar íntimo, um refúgio protegido. […] No entanto, um pênis é uma arma potencial. Ele pode ser usado para penetrar mulheres contra sua vontade, talvez em uma situação em que elas estejam indefesas, desprotegidas ou simplesmente desatentas“ (Borchert, 2017).

Especialmente em debates feministas, a questão dos banheiros se torna repetidamente um ponto de discórdia. Como neste trecho de Anneli Borchert, frequentemente aparecem as três fixações centrais — penetração, analidade e dissimulação — do tipo obsessivo. A discussão gira em torno do controle e da regulamentação do acesso aos banheiros, visando humilhar pessoas transfemininas. O “safe space”, que Borchert reivindica para si mesma, é negado a pessoas trans. O mesmo argumento é recorrente em muitos grupos de direita conservadora, refletindo-se em um aumento de ataques e projetos de lei discriminatórios, como se vê nos Estados Unidos e nas brechas da lei de autodeterminação.17 Conforme Young-Bruehl já descrevia no exemplo do “hall pass18 nas escolas, que permite controlar e autorizar o uso dos banheiros pelos alunos (as), isso proporciona um prazer especial para aqueles fixados no estágio anal (Young-Bruehl, 1998, p. 214).

Outro tema recorrente é a acusação de dissimulação. “Roupas femininas” e “maquiagem” são descritas como um disfarce que esconde a “verdadeira natureza”. A ativista Felicia Ewert relata encontrar a alegação de que pessoas transfemininas seriam uma “armadilha” com frequência em encontros amorosos:

„Somos retratadas como mulheres que tentariam atrair homens cis para uma ‘armadilha’. Nossa marginalização, a violência que sofremos, é invertida, e somos classificadas como o verdadeiro perigo.“ (Sand; Hofmann; Ewert, p. 70).

Em vez de lidar com seus próprios desejos, surge a acusação de engano, e o objeto do ódio é projetivamente responsabilizado pelo desconforto pessoal. A fantasia de que um grupo socialmente pouco influente exerce grande poder ou violência pode se manifestar também em teorias conspiratórias sobre o “lobby queer ou trans”, como mencionado na segunda seção do presente artigo. Tanto no “pânico de gênero no banheiro” quanto na acusação de que pessoas transfemininas são uma armadilha para homens cis, as fantasias paranoicas de penetração têm um papel central. De forma semelhante às campanhas anti-homossexuais nas forças armadas, nas quais havia medo de infiltrações nas unidades militares e de violação anal (Young-Bruehl, 1998, p. 401), os obsessivos fantasiam sobre a dupla penetração de seus espaços privados e de seus corpos.

Quando antissemitas discutem a assimilação de judeus, observa-se, por um lado, o desejo de que eles se integrem plenamente na comunidade homogênea e abandonem tudo o que os marca como judeus. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de assimilação é interpretada como dissimulação e invasão na comunidade racial (Volksgemeinschaft), sendo respondida com o desejo de aniquilação dos objetos de ódio. De maneira similar, pessoas transfemininas experienciam a exigência de conformidade com um estereótipo heteronormativo de feminilidade, ou seja, espera-se que elas se assimilem. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de adaptação é rapidamente desmascarada como uma farsa, destacando sua diferença ao serem chamadas de “homens disfarçados”. Nessa dinâmica, expressa-se o desejo contraditório do tipo obsessivo: por um lado, ele almeja um “nós” sem distinções, enquanto, por outro, só consegue manter a fantasia de um grupo homogêneo em oposição a um objeto externo de ódio. O desejo de ser uno vem acompanhado de fantasias de eliminação do outro, que precisa ser claramente marcado.

Enquanto as fantasias obsessivas de penetração frequentemente se concentram no objeto de ódio – as pessoas transfemininas –, a humilhação infligida a pessoas transmasculinas geralmente se manifesta na negação de sua autodeterminação. Elas são frequentemente retratadas como “mulheres” confusas que precisariam ser protegidas de seus próprios desejos.19 Essas estratégias de infantilização correspondem mais fortemente aos mecanismos de defesa dos(as) histéricos(as).

b) O tipo histérico e seus preconceitos

No centro da vida do tipo histérico está um grupo estruturado familiarmente (como família nuclear, nação ou organização), que apresenta uma ordem hierárquica rígida, justificada como natural, conforme descrito por Young-Bruehl. Nessas associações, o preconceito de classe ou o racismo, assim como a infantilização dos próprios filhos, podem ser princípios determinantes. Em contraste com o tipo obsessivo, para o qual a mera ideia do grupo depreciado basta para erigir seus preconceitos, o tipo histérico necessita de contato com o objeto de seu ódio. Aqui, também, o desejo inicial se inverte em seu oposto. “Eles pensam ‘eu os odeio’ e reprimem o oposto ‘eu os amo’; seu ‘eu não quero estar perto deles’ impede a consciência de ‘eu quero estar perto deles’” (Young-Bruehl, 1998, p. 222). Os mecanismos de defesa do caráter histérico atacam o poder que as vítimas supostamente teriam, já que elas desfrutariam muito da vida. Elementos centrais desse processo são as “satisfações eróticas da vida, geralmente orais ou genitais” (Young-Bruehl, 1998, p. 230).

Como punição aos que supostamente vivem as fantasias eróticas não admitidas do sujeito histérico, esses grupos são oprimidos. Young-Bruehl explica que as ações preconceituosas assumem formas específicas de acordo com o gênero: homens que são educados para a esfera pública frequentemente visam a sexualidade de suas vítimas. Eles mantêm casos com mulheres do grupo oprimido para demonstrar sua superioridade sexual sobre os homens desse grupo. Já as mulheres, ao atuar na esfera doméstica, exploram excessivamente seus empregados (por exemplo, cuidadores) ou os tornam dependentes de si por meio de gestos filantrópicos (Young-Bruehl, 1998, pp. 226–27).Qualquer ataque à ordem hierárquica da sociedade provoca reações de defesa.20 Como o tipo histérico tem dificuldades em manter uma clara distinção entre si (o sujeito) e os objetos, ele entra em crise quando estruturas externas, que ele próprio sustenta, começam a se deteriorar. Isso pode assumir, por exemplo, a forma de medo da perda de poder econômico (Young-Bruehl, 1998, p. 225).

A confrontação com formas de vida não heteronormativas pode igualmente desencadear essas crises e se inverter em queer- e transfobia. Para indivíduos do tipo histérico, isso se manifesta como um medo de que sua própria posição na ordem binária de gênero não seja tão fixa quanto acreditavam. A sexualidade das pessoas queer, vista como transgressora, serve como uma tela para a projeção de seus próprios desejos reprimidos. Entre atração e depreciação, o tipo histérico pressente o risco da perda de si mesmo ao entrar em contato com pessoas queer, reagindo de maneira defensiva.

Quando crianças queer, em particular pessoas transmasculinas “saem do armário”, o desejo que expressam costuma ser respondido com infantilização. Diz-se que, nessa idade, ainda não sabem o que querem e estão apenas usando o ato transgressivo para fugir de sua própria posição. Por exemplo, a organização Terres des Femmes [Terra das Mulheres], em um pronunciamento público de 2020, retratou pessoas transmasculinas e não-binárias como “meninas” que precisam ser protegidas e que não deveriam ser “induzidas” à transição (Sand, Hofmann e Ewert, pp. 78–79).21 Enquanto a organização denuncia o sexismo e insinua que pessoas transmasculinas desejam a transição para escapar da misoginia, ela acaba por deslegitimar a autonomia dessas pessoas que reivindicam sua autodeterminação. Esse paradoxo revela uma estrutura histérica subjacente, que busca impedir mudanças de posição nas hierarquias sociais.

c) O tipo narcisista e seus preconceitos

Segundo a teoria de Freud, todos os seres humanos experienciam o narcisismo primário na infância. (Freud, 1982b) Nessa fase, a criança se percebe como unificada com as figuras cuidadoras. Suas necessidades são satisfeitas dentro dessa simbiose, razão pela qual o desejo do bebê não se direciona para o exterior, mas permanece dentro desse círculo. Somente através da experiência de que as figuras cuidadoras também não estão constantemente disponíveis para a criança e agem de forma independente, como seres distintos, a libido se desenvolve para o exterior.

Nesse processo de separação, a inconsistência e a indisponibilidade das figuras cuidadoras levam a agressões e raiva. O narcisismo relevante aqui se forma – de maneira secundária – como uma reação defensiva a essa raiva sentida. Para se proteger do exterior, que é percebido como destrutivo, a libido se retrai para dentro de si e não se direciona mais para outros objetos (Young-Bruehl, 1998, p. 231).Os tipos de caráter narcisista são ambiciosos, mas essa ambição pode assumir duas formas diferentes: por um lado, a autoconfiança pode ser construída sobre os próprios sucessos e poder; por outro lado, a subordinação a uma pessoa poderosa e a identificação com seus sucessos também constitui uma realização das características narcisistas. Em ambos os casos, líderes ou seguidores são percebidos como uma extensão do seu próprio ser.

„Alguns narcisistas são líderes, alguns são seguidores: os líderes projetam um senso de grandiosidade do ser em contraste à tendência dos seguidores de idealizar e ‘engrandecer’ os outros, com os quais, então, se aliam e geralmente se identificam.“ (Young-Bruehl, 1998, p. 232)

Narcisistas geralmente exploram outras pessoas em relacionamentos para manter seu valor próprio. “Da mesma forma, no campo dos preconceitos, os preconceitos narcisistas consistem em usar seus alvos para a manutenção de sua autoestima” (Young-Bruehl, 1998, p. 233). Essas relações preconceituosas funcionam contanto que o narcisista possa perceber os outros como parte de si mesmo. No entanto, se as pessoas amadas reivindicam sua independência ou se as pessoas odiadas revelam que são intelectualmente superiores, o sistema narcisista desmorona. Grupos narcisistas frequentemente agem de maneira sexista, mesmo que não expressem abertamente seu ódio contra as mulheres, como é o caso de racistas ou antissemitas:

„Eles falam de valores, tradições, padrões, os quais eles devem proteger, sem especificar seus oponentes enquanto grupo; afinal, é claro, as mulheres (ou, mais recentemente, as feministas) são a verdadeira causa do declínio e ruína de tudo que eles prezam.“ (Young-Bruehl, 1998, p. 235)

Ao serem questionados sobre a reivindicação de poder masculino, os narcisistas reagem com violência. Posições queer e antipatriarcais, que se opõem às pretensões de poder e às “tradições” heterossexistas, mas também a (percebida) recusa à disponibilidade sexual por parte de pessoas trans, podem levar a reações agressivas e feminicídios por parte de tipos narcisistas.

4. Posse fantasma e hostilidade queer

Com os tipos de Young-Bruehl, é possível categorizar diferentes preconceitos que permitem responder à questão inicial sobre por que o antissemitismo, de um lado, e a queer- e transfobia, de outro, apresentam estruturas semelhantes. Além disso, esses diferentes tipos possibilitam uma visão mais detalhada das diversas formas e de sua função na psique dos sujeitos que odeiam. Isso permite que o campo de estudos da queer- e transfobia seja analisado de forma mais diferenciada e se abra para uma análise interseccional. No entanto, a questão de por que esses preconceitos se formam só pode ser respondida no nível do indivíduo segundo a teoria de Young-Bruehl. Para explicar por que determinados grupos se tornam alvos de preconceito, é essencial uma análise histórica, como a discutida na segunda seção do presente artigo. Embora uma estrutura possa flexivelmente incorporar outro objeto de ódio, o grupo afetado é pré-determinado por probabilidades históricas, sociais ou econômicas. A questão mais profunda sobre quais sociedades são produzidas por essas formas de subjetivação, não pode ser satisfatoriamente respondida pela obra A Anatomia do Preconceito. Young-Bruehl estabelece uma relação entre crises econômicas e preconceitos obsessivos e aponta para o chauvinismo social dos(as) histéricos(as) como uma reação ao medo de perder status. Contudo, ela não revela qualquer relação fundamental entre a estrutura de economia psíquica e o funcionamento de uma sociedade capitalista e patriarcal. Além disso, em sua referência a Freud, a família nuclear permanece o ponto de partida inquestionado de sua análise, de forma a naturalizá-la. É plausível, entretanto, que especialmente os preconceitos histéricos e narcisistas encontrem na estrutura frequentemente hierárquica da família um local primário de efetivação.

Na palestra “Posse Fantasma e Mecanismos de Defesa”, Eva von Redecker tenta preencher essa lacuna na teoria de Young-Bruehl. Ela descreve os mecanismos de defesa como uma tentativa de sustentar o sujeito instável do capitalismo liberal. O sujeito, que deve agir como proprietário de si mesmo no capitalismo, inevitavelmente falha em cumprir essa exigência. Ele é constantemente confrontado com experiências em que o “eu” escapa ao seu controle, como no caso de uma doença ou de desejos incontroláveis. A ficção da posse de si é erigida por meio da convicção de que se tem o direito de exercer poder sobre os outros. Como reação à abolição de relações jurídicas de posse sobre pessoas, como a escravidão ou a submissão jurídica das mulheres aos maridos, formam-se objetos de substituição fantasmáticos, que se manifestam no sexismo ou racismo.

Os mecanismos de defesa que Young-Bruehl descreve podem ser interpretados, segundo Eva von Redecker, como defesas dessa “posse fantasma.” O tipo de personalidade narcisista estende a ficção da posse de si aos seus seguidores, incluindo mulheres cis, pessoas trans e queer, seguindo o imperativo de acumulação do capitalismo. Isso inclui a reivindicação de posse sobre essas pessoas e a disponibilidade sexualizada de seus corpos. Tipos histéricos, por sua vez, trabalham para manter a fronteira entre si e os objetos percebidos como hierarquicamente subordinados, de modo a firmar seu direito de controle. Assim, defendem, por exemplo, seu direito a mão de obra barata de pessoas racializadas e sua posição de superioridade política. A exploração de pessoas transfemininas e a subordinação de crianças queer funcionam de forma estabilizadora para o tipo histérico. Finalmente, Redecker também traça um paralelo entre a “posse fantasma” e as personalidades obsessivas. Como os outros tipos, essas personalidades defendem-se da ideia de perda de posse de si e, por isso, desenvolvem fantasias paranoicas de ladrões, invasores, parasitas ou de um “lobby queer” superpoderoso, que ameaça seu patrimônio material ou simbólico. Esse tipo só consegue criar sua ficção de um “eu” homogêneo e fechado, assim como de um grupo “nós” igualmente estruturado, ao imaginar grupos sacrificiais e impuros que ele deseja eliminar.22

5. Conclusão

Queer- e transfobia fazem parte de uma reação conservadora na qual também movimentos de esquerda tomam parte. Seus preconceitos assumem, em parte, uma forma obsessiva e podem, assim, desempenhar a mesma função na psique dos sujeitos que odeiam, tal como o antissemitismo. Além disso, a descrição dos três tipos deixa claro que a hostilidade contra pessoas queer e trans também pode ser usada por histéricos e narcisistas para estabilizar o eu. O fato de que esses preconceitos podem fazer parte de diversos mecanismos de defesa esclarece por que pode haver uma reação tão ampla contra pessoas queer e trans. A queerfobia representa um preconceito universal, do qual cada tipo de preconceito pode participar. Além disso, em consonância com a Teoria Crítica, seria necessária uma investigação mais abrangente para entender por que esses tipos de preconceitos se formam.

A abordagem de Eva von Redecker pode ser apenas um primeiro passo para descrever a forma específica de subjetivação capitalista e seus preconceitos estabilizadores. Os tipos formulados por Elisabeth Young-Bruehl oferecem uma boa base para essa investigação, pois, na divisão em três partes, as especificidades dos diferentes mecanismos de defesa são mantidas sem generalizações excessivas. Ao mesmo tempo, o nível estrutural de sua descrição permite relacionar todas as suas manifestações com as mesmas dinâmicas de economia psíquica e sociais.

Agradecimento

Eu agradeço a Lilith Poßner pelas inúmeras indicações teóricas e empíricas e à excelente revisão.

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1 Uma crítica do antissemitismo em termos de preconceito e “bode expiatório”, bem como uma análise especificando a qualidade do antissemitismo em relação a outras formas de racismo, foi feita por Postone (2021)

2 A relação entre antissemitismo e revolta contra capitalismo por meio de personificações da forma social foi elaborada por Postone (2021, p.48): “O antissemitismo moderno, portanto, é uma forma de fetiche particularmente perniciosa. O seu poder e periculosidade resultam da sua visão de mundo abrangente, que explica e dá forma a certos modos de descontentamento anticapitalista que, ao atacarem as personificações da forma social, deixam o capitalismo incólume.” Papel semelhante é desempenhado pela transfobia, em especial quando olhamos para o discurso do feminismo radical trans-excludente. Sobre isso, conferir o artigo Apresentando “Terfs, movimentos críticos de gênero e feminismos pós-fascistas” (Corrêa; Rodrigues, 2023).

3 Sobre a crise do “sujeito político mulher”, ver Marxismo – Feminismo – Teoria Crítica hoje … e a crítica da Dissociação-valor de Roswitha Scholz, disponível em: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz39.htm. E sobre a relação entre transfobia e crise da “mulheridade”, ver Corrêa; Rodrigues, 2023.

4 A apresentação do fascismo histórico como “antimoderno” desconsidera como o fascismo desempenhou, sob diversos aspectos, uma função modernizadora. O que se verificou também no plano das relações de gênero e da construção da feminilidade. Como observou Natasha  Chang em The crisis-woman (2015):  “A modernidade era um conceito notoriamente instável que, por um lado, significava características positivas como vitalidade, progresso social, competitividade econômica e o avanço dos interesses nacionais, mas, por outro, evocava ideias de um internacionalismo perigoso ou uma ameaça de expansão urbana, e a subsequente necessidade de retornar aos valores convencionais. O regime fascista estava profundamente investido em avançar sua própria versão da mulher moderna, a donna nuova, como a personificação dos termos positivos mencionados acima.” (Chang, 2015, p.36). Esse trecho mostra bem como a contradição entre abstrato e concreto, manifesta nas relações de gênero, é resolvida no interior do fascismo a partir de uma mobilização dos aspectos “concretos” da modernidade industrial como positivos, em oposição ao abstrato com seu “internacionalismo” e destrutividade incontrolável – o que já indica os elementos antissemitas no discurso fascista sobre a “mulher-crise”. Para o fascismo, tratava-se de produzir uma modernização das relações de gênero e, portanto, da produção da feminilidade sem que ameaçasse a diferença sexual “natural”. Assim, o que explica a aparente contradição entre defesa do progresso e imagem fascista da feminilidade materna, terrena e doméstica são os aspectos “concretos” e “materiais” da modernização tomados como positivos e “naturais”.

5 O caráter fetichista da dissociação sexual, que constitui uma forma de mediação social que visa a si mesma, e sua relação com as delírios de dissimulação/manipulação se apresentam de maneira muito explícita nos casos em que mulheres cis são confundidas com trans, no contexto de acesso aos banheiros. Tais casos, que tem ganhado visibilidade no Brasil, apontam pro caráter apriorśitico da dissociação sexual como uma dominação sem sujeito, se processando de maneira relativamente independente e “pelas costas” do indivíduos empíricos. De modo que a “loucura objetiva” da diferença sexual e a violência intrínseca ao seus processo de imposição e determinação das relações sociais, acabam afetando as próprias pessoas cis, que passam a desconfiar uma das outras em relação à “autenticidade” e “coerência” de sua identidade de gênero. Há que se observar, além disso, o caráter racializado da dissociação sexual, na medida em que tais casos de “confusão” ocorrem, sobretudo, em relação à mulheres negras.

6 O que não contradiz a relação afirmativa e de glorificação com a tecnologia, desde que enfatizada em seu aspecto “natural”, “concreto”, em oposição aos aspectos abstrato negativos. Algo que já era presente no fascismo histórico e sua relação entre “sangue” e “máquina”. O mesmo ocorre nas retóricas anti-trans, que não excluem uma relação afirmativa com as tecnologias em seu aspecto material, sendo denunciado as manipulações e as forças ocultas abstratas que operam por meio delas, ameaçando a segurança da mulheres e crianças.

7 Comenta Postone: “A hipostasiação do concreto e a identificação do capital com o abstrato manifestado está na base de uma forma de ‘anticapitalismo’ que procura superar a ordem social existente de um ponto de vista que, na verdade, permanece imanente a esta mesma ordem” (Postone, 2021, p.44)

8 Embora não haja espaço aqui para desenvolver este ponto, é preciso observar que a transfobia parece ocupar, no interior da contradição entre abstrato e concreto, uma posição ambivalente, intermediária entre antissemitismo e outras formas de racismo, como racismo anti-negro, anti-indígena e anti-árabe, que são centrados  na “ameaça” de um poder material, corporal e sexual. Algo que é particularmente visível na relação estabelecida entre corpo trans com a transmissão de vírus (Preciado, 2023). De modo que essas modalidades distintas de ódio se entrecruzam no ódio anti-trans. Isso explicaria, talvez, o fato de nas teorias de conspiração antissemita e transfóbicas as pessoas trans ocuparem uma posição tutelada.

9 N.T.: coalização governamental entre os social-democratas do partido SPD (vermelhos), os liberais do FDP (amarelos) e o partido verde.

10 N.T.: o feminismo da diferença é a forma como é designada na Europa uma corrente do feminismo que enfatiza as diferenças de gênero ao invés da luta pela igualdade, onde as distinções entre os sexos masculino e feminino devem ser levadas em conta ao invés de superadas como advogam as feministas liberais

11 N.T.: a posse fantasma é um conceito psicanalítico que descreve um mecanismo de defesa psíquico no qual o sujeito guarda a memória de um objeto, pessoa, tempo ou sensação, real ou idealizada, do passado, à qual se apega como imagem de um momento ideal.

12 N.T.: o movimento crítico de gênero faz parte de um desdobramento da terceira onda do feminismo do qual surgiu o feminismo radical, cujas ramificações incluem, contemporaneamente, o questionamento da legitimidade da identidade trans.

13 Ativistas antitrans e críticas do gênero, como Janice Raymond e Posie Parker, também recorrem a tópicos semelhantes, buscando alianças com a direita em sua luta contra os direitos das pessoas trans.

14 Sobre a projeção simultânea de disponibilidade sexual e o medo de um poder irrestrito do outro no antissemitismo, ver também: (Adorno 1969).

15 N.T.: leis de segregação racial vigentes nos EUA até a declaração dos direitos civis

16 Indiretamente, Young-Bruehl refere-se aqui à análise freudiana das “Memórias de um Neurótico” de Daniel Paul Schreber. Freud identifica no desejo homossexual reprimido o cerne do conflito paranoico. Na paranoia, “Eu o amo” se transforma em “Eu não o amo — na verdade, eu o odeio”, mas essa contradição interna não pode ser conscientemente assumida pelo paranoico. Ela precisa ser externalizada e transformada em uma ameaça vinda de fora: “Eu não o amo — eu o odeio — porque ele me persegue”. O desejo inconsciente torna-se uma ameaça externa devido à impossibilidade de ser assumido conscientemente. (Freud, 2007, pp. 186-87). Para uma reconstrução detalhada, ver o capítulo sobre a “Gramática da Loucura” em (Poßner 2022), p. 35ff.

17 Nos Estados Unidos, em 2015, alguns projetos de lei “Bathroom Bills” [N.T.: Lei dos banheiros públicos] foram propostos e até implementados, visando impedir que pessoas transfemininas pudessem usar banheiros públicos de forma segura. Anteriormente, republicanos e outros grupos conservadores difamaram pessoas transfemininas, acusando-as de comportamento abusivo. Isso fez parte de sua agenda de direita, hostil às pessoas queer. Para uma leitura adicional, é recomendável o artigo de Julia Serano “Transgender People, Bathrooms, and Sexual Predators: What the Data Say” [Pessoas trans, banheiros e predadores sexuais: o que dizem os dados], onde ela mostra que pessoas trans são, estatisticamente, mais propensas a serem vítimas de abusos e violência sexual em banheiros públicos, e que banheiros inclusivos reduzem esses números. Em contraste, o número de agressões contra pessoas queer aumenta com o pânico moral sobre banheiros. Ela também explora o contexto histórico do “pânico nos banheiros”, no qual homossexuais foram igualmente confrontados com o mesmo preconceito de serem abusivos nesses espaços. (Serano, 2021). Ver também: Lopez, s.d.

18 N.T.: espécie de comprovante de permissão para sair da sala de aula utilizado nos EUA.

19 Este argumento contra a autodeterminação é amplamente discutido no livro de Abigail Shrier, Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters (Dano Irreversível: A Mania Transgênero Seduzindo Nossas Filhas), disponível na Alemanha através da loja online da revista de direita Compact. A ideia projetiva de sedução já aparece no título. Uma análise das teorias conspiratórias desses “pais preocupados” pode ser encontrada em Serano, 2023.

20 Nesse sentido, o sucesso do argumento de que pessoas queer “nascem assim” é compreensível, pois acalma preconceitos histéricos. Se todas as pessoas queer “sempre foram assim”, é possível construir uma ordem na qual elas não alterem sua posição após a “saída do armário”. Isso nega a experiência de fluidez na atração sexual e no gênero. Ver Greenesmith, 2021.

21 Este posicionamento foi posteriormente retirado por razões principalmente estratégicas.

22 (Redecker, 0:21:00 – 0:30:00). Ver também: Redecker, 2020.