31.12.2001  Beitrag drucken

Inifinite Justice

de Franz Schandl

Os projectos mais hediondos pedem o vocabulário mais fantástico. E como nada é tão fantástico como a raiva, a raiva assassina encontra-se tão bem cotada nos dias que correm. Trata-se de uma verdadeira epidemia à escala planetária. Infinite justice, justiça infinita, afinal, só pode ser entendido no sentido de que na morte todos são iguais. É esta última que agora importa espalhar. „A justiça será feita“, diz Bush e recomenda-se como a espada afiada dos seus valores que têm de ser os nossos. Onde se começa a rezar, pára o pensamento. Mas afinal é para isso mesmo que serve a fé, seja em Deus ou no dinheiro, ou em ambos.

Onde semelhantes „conceitos“ são introduzidos, o pensamento definha. Impera o ressentimento emocional. O Bem luta contra o mal, tudo se passa como num desses contos de fadas da indústria cultural „made in Hollywood“. O que é pior não é que as pessoas mintam a si próprias, mas que acreditam na conversa da justiça. Assim gritam, cheios de convicção: Give war a chance!

No fundo deveríamos dar graças à administração dos EUA por dizer tão desavergonhadamente o que lhe vai na alma, mesmo que, a bem dizer, não possa medir o alcance dos seus desígnios. O que continua um facto é que o rasto de sangue mais espesso desde 1945 é o dos Estados Unidos da América. Isso, no entanto, não se deve a uma malícia especial dos americanos, sendo, antes, expressão do facto de se tratar da maior formação capitalista.

O que se avizinha não é a imposição da Justiça, mas o fim do Direito. It’s the finish of law. Os terroristas deram o exemplo. Os outros terroristas seguem-lhes o exemplo. Quem são os melhores depende da falta de bom gosto de cada um. Infinite justice significa que quem não vai a bem, vai desta para melhor. Neste ponto, os americanos e os talibãs estão de acordo. „Abaixo os infiéis!“ E o mundo inteiro acha dever tomar partido em vez de se recusar terminantemente a alistar-se nesta frente de combate.

Interessante seria saber quem é capaz de pôr fim ao morticínio, e não quem o começou. Esta última é uma questão limitativa que sempre encontra uma justificação: „Se vocês não tivessem, a gente não tinha…“ Quem compensa mortos com mais mortos, sempre voltará a produzir mais mortos. É esta a lógica que tem de ser quebrada. Se tal pode acontecer é, no entanto, duvidoso. Toda a experiência a isso se opõe, ao passo que toda a necessidade o reclama. Assim, os guerreiros de Deus ora se preparam em todos os lados, mas a resistência é fraca. Na guerra santa, isso sabemos nós, já não há nada de sagrado. Tudo pode transformar-se num alvo da morte. É que o alvo é a morte. A única coisa que o Homem pode ser de forma ilimitada é morto. Definitivamente. O que se anuncia é a generalização do impulso de morte. Golpe após golpe. Atentado após atentado.

Tradução: Lumir Nahodil

Publicado em www.krisis.org em Setembro de 2001