31.12.2005  Beitrag drucken

OS VALORES OCIDENTAIS SÃO APENAS O OUTRO LADO DO CULTURALISMO

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Entrevista de Norbert Trenkle a Salih Selcuk para a revista YARIN

Salin Selcuk – Apesar do forte apelo que as ideologias culturalistas ainda possuem (Huntington, Bin Laden, micronacionalistas, neo-antisemitas, etc.), o chamado para explicações político-econômicas da atual situação mundial ganhou mais voz. O tempo do culturalismo já passou?

Norbert Trenkle – Infelizmente não. Não acredito também que essas explicações soem tão claras. Pelo contrário, quanto mais intolerável for a situação de vida para a maioria da população mundial, pelo fato do capitalismo ter basicamente declarado-as supérfluas, mais as ideologias culturalistas e fundamentalistas encontrarão ressonância. Por explicarem o mundo usando categorias simples: bem e mal, amigo e inimigo, certo e errado, elas oferecem falsas seguranças durante um certo período quando tudo se despedaça. É evidente a estreita ligação entre a ascensão dessas ideologias e a crise capitalista mundial. Nos países pobres, essa ascensão começou nos anos 70 do século passado quando ficou claro que as esperanças de uma modernização acelerada e de uma certa equalização política e econômica com os países capitalistas centrais malograram de vez. Naquele momento, as ideologias socialistas e de libertação nacional perderam atratividade e credibilidade. Em todo o Ocidente, o mesmo processo começou um pouco depois quando a crise se tornou mais tangível e as expectativas de futuro mais desanimadoras.

O colapso do chamado socialismo real de fato acelerou mundialmente esse processo por uma necessidade de contrapartida à ideologia capitalista liberal. Mesmo que alguém diga que o socialismo não era realmente uma alternativa ao capitalismo, mas somente uma certa forma de modernização acelerada pela organização estatal, certas ideologias de diferentes formas sociais estavam ligadas à sua existência. Essa lacuna ideológica tem sido preenchida pelo culturalismo. No lugar de falar sobre a rivalidade entre diferentes sistemas (que não eram tão diferentes assim), agora o “choque de culturas” é propagado e colocado em prática em todos os níveis.

SS – Como a esquerda reage a isso? O que pode ser feito contra essa tendência?

NT – Desde os anos setenta e oitenta do século passado, parte da esquerda tem produzido numerosas contribuições muito importantes para a crítica e a desconstrução de identidades nacionais, étnicas, sexuais, entre outras. Teóricos como Foucault, Balibar, ou mesmo Hobsbawm têm demonstrado como tais identidades foram fabricadas no decorrer do estabelecimento da sociedade moderna capitalista e que são tudo menos “originais” e “naturais”. Isso é um avanço cognitivo destacado quando as comparamos com a teoria social do passado. Infelizmente, a mudança de direção para além do paradigma cultural e da crítica da ideologia e da identidade foi acompanhada pela negligência em relação à crítica da economia. Agora, em função do avanço da crise capitalista, ela cobra o seu preço e as questões econômicas são novamente o foco das atenções, como você acabou de mencionar. Aqui, onde a esquerda tradicional reduz o capitalismo à luta de classes e exploração ou mesmo só ao seu aspecto imperialista, o velho jogo continua.

Uma crítica reduzida do capitalismo é perfeitamente compatível com o culturalismo e o nacionalismo, por exemplo, quando as identidades nacionais e culturais são trazidas à tona contra os EUA ou o Ocidente sob o lema antiimperialista. Um outro exemplo é a igual redução da crítica do capitalismo à crítica da especulação e dos mercados financeiros, como é freqüentemente praticada pelo movimento antiglobalização. Isso não está completamente errado, porque a especulação do mercado financeiro é apenas um aspecto da mercantilização completa de todas as relações humanas sob o capitalismo, mas não é a sua causa. Em adição, essa crítica reduzida é às vezes acompanhada [especialmente na Alemanha] por um anti-semitismo parte subliminar, parte aberto que identifica “os judeus” com o capital financeiro e faz deles responsáveis por todo o mal no mundo.

Essas tendências devem ser criticadas com precisão. A esquerda mais uma vez se levantou para a emancipação social. Mas se isso se mistura com o culturalismo e o anti-semitismo, torna-se reacionário. É onde vejo que a esquerda tradicional encontrou os seus limites. Por esta razão, uma mudança fundamental de paradigma na crítica do capitalismo tornou-se necessária.

SS – Na sua opinião, em que deve consistir a mudança desse paradigma?

NT – Antes de tudo, é fundamental compreender que as compulsões e as imposições do capitalismo não podem ser atribuídas ao simples desejo das classes dominantes ou de outros grupos poderosos, mas são os seus resultados intrínsecos, resultados da lógica dinâmica do sistema. Essa lógica do sistema se tornou independente das pessoas e aparece como uma lei natural, mesmo que na realidade ela não passe de apenas mais uma forma específica de organização social, historicamente definida e, por essa razão, passível de superação. No capitalismo, as pessoas não entram diretamente em relação umas com as outras, mas através de maneiras indiretas como mercadoria, trabalho e dinheiro. Assim, as relações humanas tomaram uma forma material e se apresentam às pessoas como um poder externo aparente, na forma de “constrangimentos materiais”, que elas criaram por elas mesmas e sob os quais todos devem se submeter para que, até onde for possível, não existia a superação da lógica capitalista.

Neste contexto, Marx fala da produção do fetichismo da mercadoria. Com esse conceito queremos dizer que, na sociedade moderna, as pessoas são dominadas pelas suas próprias relações sociais, não por um ser consciente que supostamente as controla. Mais ainda, Marx intencionalmente escolhe uma metáfora religiosa. As pessoas modernas são objetos das compulsões da produção de mercadorias, da valorização do capital e do trabalho, provavelmente, muito mais que as sociedades antigas, submetidas aos seus próprios tabus, leis e idéias religiosas. O ser capitalista acredita na onipotência do mercado, no mínimo, assim como o papa acredita no Espírito Santo. O capitalismo é basicamente uma sociedade profundamente religiosa mesmo com a forma paradoxal de secularização total. Tomamos, por exemplo, o fatalismo com o qual se aceita a compulsão pelo crescimento permanente. Mesmo que todos saibam que os recursos naturais estão acabando e que as bases humanas da vida também estão sendo destruídas com o crescimento, ao passo que a miséria social não é reduzida, mas agravada, a sociedade capitalista se submete a essa compulsão, como se ela fosse uma dádiva divina. E esse é apenas um exemplo entre tantos outros.

SS – O que isso significa para a crítica da sociedade anterior que a esquerda fazia? Ela ficou obsoleta? O que deve ser superado? O que pode ser conservado?

NT – Bem, o que deve ser conservado é o impulso fundamental para a superação do capitalismo e da liberação social contra a dominação e a opressão. Mas esta perspectiva deve ser novamente definida. A questão central deve ser a abolição da produção de mercadoria porque todas as compulsões do capitalismo e todas as suas formas de dominação e opressão, seja o trabalho na fábrica, seja o domínio político-militar ou a subjugação das mulheres, são em última instância derivadas dela. O mesmo podemos dizer das formas de consciência. Atualmente, o fetichismo da mercadoria não é um fenômeno econômico externo, mas uma estrutura social compreensiva que molda os pensamentos e as ações humanas, nas formas de nacionalismos, racismos e culturalismos. Essas ideologias e formas de consciência são a expressão de um desejo por identidade e diferenciação produzido atualmente pelo próprio capitalismo, para que essas pessoas isoladas umas das outras sejam competidores, produzindo permanentemente novas exclusões. Desse modo, a divisão do mundo em Estados Nacionais tem um papel importantíssimo atualmente. Mesmo que o culturalismo se refira a supostos valores e tradições originais, isso é um fenômeno completamente capitalista, em hipótese alguma anticapitalista.

Além disso, o universalismo abstrato dos tão alardeados valores ocidentais é também uma expressão da lógica capitalista e de suas coações. Os valores ocidentais são basicamente uma reflexão ideológica sobre o universalismo real da produção de mercadorias, cuja compulsão intrínseca é subjugar todo o mundo. Nesse sentido, os valores ocidentais são apenas o outro lado do culturalismo. Ambos inseparavelmente reunidos (como Huntington e Bush o demonstram) e, por isso, devem ser superados juntos.

SS – O que poderia ser feito para se superar os antagonismos culturalistas fabricados e se prevenir uma guerra? Qual seria o papel da Turquia?

NT – Teoricamente, é importante enxergar a conexão intrínseca entre os pares gêmeos culturalistas e valores ocidentais, sua relação com a estrutura geral da sociedade produtora de mercadorias, e criticar a produção dessas identidades. Em termos práticos, há uma questão básica válida em todo o mundo de se opor a qualquer etinização social, econômica e política de conflitos. Para isso, naturalmente, há diferenças entre cada país e região. Na Alemanha, por exemplo, isso significa lutar contra o racismo dirigido contra os imigrantes, especialmente contra turcos e muçulmanos. Eu conheço muito pouco sobre a Turquia, mas no geral é importante se opor ao crescimento de tendências étnicas e fundamentalistas porque elas são simplesmente anti-emancipatórias. Certamente, deve ficar claro que uma superação do capitalismo exigirá um movimento de liberação social orientado transnacionalmente desde o começo, um movimento que por essa razão solidariamente desrespeite todas as fronteiras definidas pelo capitalismo.

Fev/2005.