Ernst Lohoff
Jungle World, 2026/09
Durante muito tempo, Alemanha e China, com suas indústrias exportadoras, estiveram entre os maiores beneficiários da expansão do comércio mundial. Agora, os modelos econômicos de ambos encontram-se em uma grave crise.
“Os primeiros serão os últimos”, disse Jesus segundo o Novo Testamento – uma advertência que hoje se aplica igualmente à China e à Alemanha. Após a grande crise financeira de 2007 a 2009, ambas as economias foram consideradas por muito tempo exemplares e rapidamente voltaram a uma trajetória de crescimento. Na China, nem sequer se chegou a uma recessão, a taxa de crescimento anual, que antes era de dois dígitos, caiu apenas para 9% em 2008 e 6% no ano seguinte.
Agora, porém, a economia chinesa encontra-se em situação dramática: há 40 meses que o país está mergulhado em uma crise deflacionária. Os preços dos produtos industriais continuam a despencar. A demanda interna colapsou, o desemprego juvenil aumentou significativamente. As empresas acumulam dívidas e suspendem investimentos, enquanto a capacidade excedente na produção permanece elevada.
Na Alemanha, o relaxamento do chamado “freio da dívida” no ano passado gerou um mini-crescimento de 0,2% após dois anos de recessão. Ainda assim, o crescimento continua a ser o mais baixo entre as nações industrializadas e na UE. As perspectivas são sombrias. Os tempos em que a Alemanha se apresentava como um aluno exemplar na economia e o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble (CDU) obrigava os países da UE a uma política de austeridade rigorosa acabaram.
O fato de justamente os dois países que, há décadas, apresentam os maiores excedentes comerciais estarem enfrentando grandes problemas econômicos tem razões mais profundas. Suas histórias de sucesso baseavam-se em uma determinada estrutura da economia mundial, que agora está se desintegrando.
Desde os anos 80, a economia mundial tem sido impulsionada pela multiplicação exponencial do “capital fictício” (Marx), ou seja, títulos de dívida, derivativos financeiros e ativos de ações cada vez mais valorizados. O setor financeiro tornou-se o maior motor de crescimento da máquina capitalista como um todo, e o seu centro mais importante, de longe, estava nos EUA. Enquanto os EUA criavam e exportavam produtos do mercado financeiro em grande escala e, ao mesmo tempo, se endividavam fortemente, a China e a Alemanha, por sua vez, podiam oferecer bens industriais nos mercados mundiais.
Para a China, os limites desse crescimento impulsionado principalmente pelas exportações já se anunciavam durante a grande crise financeira, ainda que uma recessão tenha sido evitada. Isso só foi possível porque o próprio país começou a criar enormes quantidades de capital fictício, que fluiu principalmente para o setor imobiliário. A bolha imobiliária chinesa da década de 2010, uma das maiores da história mundial, e a expansão da infraestrutura financiada pelo Estado foram responsáveis, em alguns momentos, por 30% do produto interno bruto (PIB).
Mas esse crescimento teve seu preço: existem cerca de 65 milhões de apartamentos invendáveis na China. As montanhas de dívida continuam a crescer, e a crise imobiliária que começou por volta de 2020 persiste até hoje. Se em 2008 a dívida pública da China era de 27% do PIB, agora é de cerca de 90%. No mesmo período, o montante da dívida das empresas, do Estado e das famílias passou de cerca de 130% para mais de 300% do PIB.
A Alemanha ainda conseguiu ter sucesso na década de 2010 com a sua orientação exportadora. Enquanto prevaleceu o livre-comércio, a indústria alemã se beneficiou dos programas de estímulo econômico e da formação de bolhas em outros Estados capitalistas importantes. A China contribuiu de forma especial para o segundo “milagre econômico” alemão, substituindo os EUA como principal destino das exportações alemãs em 2016. Entretanto, as condições da economia mundial mudaram drasticamente. A posição privilegiada da Alemanha na divisão internacional do trabalho tornou-se coisa do passado. Sob Trump, os EUA ergueram barreiras alfandegárias, e o livre-comércio corre o risco de se tornar um modelo em declínio.
Ao mesmo tempo, as empresas chinesas, apoiadas pelo Estado, tentam – diante da queda da economia interna – exportar ainda mais do que antes. Enquanto o superávit comercial da Alemanha encolheu na década de 2020, a China atingiu um recorde histórico em 2025, com 1,2 trilhão de dólares. Contudo, a base do sucesso das exportações é instável: apenas em alguns setores as empresas chinesas assumiram a liderança tecnológica e operam de forma lucrativa; em geral, o excedente da balança comercial baseia-se em dumping cambial e no fato de a China, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), investir cerca de 4% do seu PIB na subvenção de empresas industriais.
Assim, as empresas chinesas conquistam cada vez mais quotas de mercado no mercado mundial, mas muitas vezes trata-se de empresas que, segundo a legislação europeia em matéria de insolvência, já teriam falido há muito tempo e que despejam seus produtos no mercado mundial abaixo dos custos de produção. Devido à política protecionista dos EUA, os produtos chineses chegam agora também à Europa em quantidades cada vez maiores. Esse modelo de negócio, nascido do puro desespero, não tem perspectivas de longo prazo. As exportações de dumping aumentam o endividamento das empresas chinesas e contribuem para a erosão do livre-comércio, pois provocam os países importadores a impor direitos aduaneiros de proteção. Mesmo representantes do governo chinês afirmam há muitos anos que a dependência das exportações deve ser reduzida, sem, no entanto, serem capazes de fazê-lo.
Enquanto isso, a concorrência das empresas chinesas “zumbis” agrava a crise da indústria alemã. Ainda não há uma guerra comercial global, mas o início da desintegração da antiga divisão internacional do trabalho atinge com toda a força a Alemanha, na condição de antiga campeã mundial das exportações e principal beneficiária do arranjo anterior.
Tradução: Marcos Barreira


